PsiAgente
Por que a violência doméstica é tão subnotificada? Um olhar psicológico sobre o silêncio

25/09/2026 · Equipe PsiAgente · 4 min de leitura

Por que a violência doméstica é tão subnotificada? Um olhar psicológico sobre o silêncio

Por que a violência doméstica é tão subnotificada? Um olhar psicológico sobre o silêncio

Um problema maior do que os números mostram

Dados oficiais sobre violência doméstica no Brasil já são alarmantes — mas pesquisadores e profissionais da saúde mental são unânimes: esses números representam apenas uma fração do que de fato acontece. A subnotificação, ou seja, a diferença entre os casos que ocorrem e os que chegam a ser registrados em boletins de ocorrência, atendimentos de saúde ou até relatos informais, é um fenômeno amplamente estudado em Psicologia. Entender por que tantas vítimas não denunciam, ou demoram anos para falar sobre o que viveram, é essencial para qualquer profissional que atue direta ou indiretamente com esse tema.

O papel da cultura na naturalização da violência

Um dos fatores mais discutidos pela Psicologia social é o papel da cultura na construção do que é percebido — ou não — como violência. Expressões como "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher" ou a ideia de que certos comportamentos controladores são prova de "amor" e "cuidado" fazem parte de um repertório cultural que dificulta o reconhecimento da violência como tal, inclusive por quem a vivencia. Esse processo é conhecido como naturalização: comportamentos abusivos vão sendo normalizados ao longo do tempo, dentro da própria relação e do meio social, até deixarem de ser questionados.

Esse condicionamento cultural não afeta apenas quem sofre a violência. Também molda a forma como familiares, vizinhos e até profissionais reagem — ou deixam de reagir — diante de sinais evidentes, reforçando um ciclo de silêncio coletivo.

Culpabilização da vítima e medo do julgamento

Outro fator amplamente descrito na literatura psicológica é a culpabilização da vítima, fenômeno em que a responsabilidade pelo ocorrido é, ainda que de forma sutil, deslocada para quem sofreu a violência. Perguntas como "mas por que você não foi embora antes?" ignoram a complexidade de fatores que mantêm alguém em uma relação abusiva — dependência financeira, medo de retaliação, vínculo afetivo, filhos em comum, isolamento social construído ao longo do relacionamento, entre outros.

O medo do julgamento é, por si só, uma barreira poderosa. Muitas vítimas relatam não denunciar por temerem não ser acreditadas, ou por já terem vivido experiências anteriores de descrédito — inclusive em instituições que deveriam oferecer acolhimento. Esse é outro ponto relevante: a subnotificação também está ligada a falhas no atendimento institucional, quando o primeiro contato de uma vítima com o sistema de proteção é marcado por despreparo, insensibilidade ou burocracia excessiva, o que desestimula relatos futuros.

A pressão para "manter a família unida"

Especialmente em casos de violência doméstica envolvendo filhos, existe uma pressão — muitas vezes internalizada, outras vezes explícita, vinda de familiares ou de valores religiosos e sociais — para preservar a união familiar a qualquer custo. Esse ideal pode levar vítimas a minimizar o próprio sofrimento em nome de um bem maior percebido, adiando indefinidamente a busca por ajuda.

Violência contra homens e outros grupos: um subtema ainda mais invisível

Vale mencionar que a subnotificação também atinge grupos cuja violência sofrida é socialmente menos reconhecida, como homens vítimas de violência doméstica. Estereótipos de gênero sobre masculinidade e vulnerabilidade tornam esse relato ainda mais raro, e profissionais da saúde mental têm papel importante em criar espaços de escuta que não reproduzam esses preconceitos.

O papel do psicólogo diante desse cenário

Para quem atua clinicamente, compreender esses mecanismos psicológicos e sociais é fundamental para construir um espaço de escuta verdadeiramente acolhedor — sem julgamento, sem pressa e sem repetir, ainda que involuntariamente, os discursos de culpabilização presentes na sociedade. Isso vale tanto para o atendimento direto a vítimas quanto para o trabalho de sensibilização em escolas, empresas e outros espaços onde o psicólogo pode atuar como agente de prevenção.


Tema inspirado no vídeo "A CULTURA CONTRIBUI PARA A SUBNOTIFICAÇÃO DE CASOS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA", do canal Segundos Psíquicos (https://www.youtube.com/watch?v=EYAerJJ2yU4).

Foto de Antoni Shkraba (https://www.pexels.com/@shkrabaanthony), via Pexels.

Este texto foi produzido com apoio de Inteligência Artificial a partir de conteúdo público divulgado por Segundos Psíquicos.

O conteúdo técnico e as opiniões citadas são de responsabilidade de Segundos Psíquicos, criador do material original.

Atender esse tipo de caso exige, além de sensibilidade clínica, um cuidado redobrado com o registro das informações compartilhadas pelo paciente — dados sensíveis que precisam estar protegidos e organizados. No prontuário eletrônico do PsiAgente, o psicólogo pode manter esse histórico com segurança e sigilo, além de usar a agenda para organizar retornos mais frequentes em casos que exigem acompanhamento próximo, algo comum nesse tipo de atendimento.