Um alerta que veio de dentro da própria categoria
Durante a 19ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia, promovida pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) em julho, um dos painéis mais debatidos tratou de um tema que já faz parte da rotina de boa parte dos consultórios: o uso de ferramentas de Inteligência Artificial no exercício profissional. O painel "Psicologia e Inteligência Artificial: Desafios Éticos, Letramento Tecnológico e Precarização do Trabalho" reuniu psicólogas, pesquisadores e a presidência da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF) do CRP-RJ para discutir limites, riscos e responsabilidades.
Transcrição por IA pode comprometer o sigilo profissional
Um dos pontos centrais do debate foi o uso, cada vez mais comum, de aplicativos de transcrição automática de sessões. Segundo os palestrantes, boa parte dessas ferramentas corporativas exige a desativação da criptografia de ponta a ponta para funcionar, o que transfere dados sensíveis de pacientes para servidores privados — muitas vezes localizados no exterior. Essa prática, segundo os debatedores, fere diretamente tanto o Código de Ética Profissional do Psicólogo quanto a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que prevê sanções que podem chegar a R$ 50 milhões em casos de vazamento. A responsabilidade pela guarda do sigilo, reforçaram, é pessoal e intransferível do psicólogo — não pode ser terceirizada para uma ferramenta.
Por que a IA não substitui o vínculo terapêutico
Também foi discutida a chamada "complacência algorítmica": a tendência de sistemas de IA generativa, treinados para agradar e confirmar o usuário, criarem uma falsa sensação de interlocução humana. Para os especialistas presentes, essa característica ajuda a explicar por que a Inteligência Artificial é incapaz de substituir a psicoterapia, que depende de vínculo e relação interpessoal genuína. Foi lembrado ainda que algoritmos aprendem padrões estatísticos a partir das bases de dados com que são treinados — e, quando essas bases carregam vieses sociais, os sistemas tendem a reproduzir essas mesmas distorções de forma invisível, inclusive em contextos ligados à saúde.
Prontuários e laudos: uma linha que não pode ser cruzada
Outro ponto levantado no painel — talvez o de aplicação mais prática no dia a dia do consultório — foi o alerta contra a terceirização da elaboração de prontuários, laudos e demais documentos técnicos para ferramentas de Inteligência Artificial. Segundo a presidência da COF do CRP-RJ, essa conduta viola o Código de Ética Profissional e pode configurar infração ética grave, sujeita a processo disciplinar. A sobrecarga de trabalho, destacaram os debatedores, não é justificativa aceitável diante de uma eventual quebra de sigilo ou da emissão de um laudo sem a devida avaliação profissional.
Também entrou em pauta o risco de vínculo excessivo com ferramentas digitais de conversação — batizado no painel de "Efeito Elisa" —, capaz de afastar pacientes de relações humanas de cuidado, especialmente em momentos de crise.
O que isso significa na prática
Para a categoria, o recado dos debatedores foi de continuidade normativa, não de vácuo regulatório: o Código de Ética Profissional já em vigor (Resolução CFP nº 10/2005) e as normas de registro documental já oferecem amparo suficiente para responsabilizar o profissional pelo uso inadequado de tecnologia. Não é a ferramenta em si que está vetada — é o uso que rompe sigilo, terceiriza julgamento clínico ou substitui avaliação profissional.
Fonte: Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) — 19ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia do Rio de Janeiro: Circularidade, Resistência Antimanicomial e Ética Digital em Debate
Foto: Tima Miroshnichenko via Pexels
Este texto foi produzido com apoio de Inteligência Artificial a partir de informações públicas divulgadas pelo Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ).
Discussões como essa reforçam um princípio que já orienta o desenvolvimento do PsiAgente: tecnologia no consultório só faz sentido quando reforça — e nunca substitui — a responsabilidade clínica e o sigilo profissional. Recursos como prontuário eletrônico, agenda e organização financeira do consultório existem para dar mais tempo e segurança ao psicólogo naquilo que só ele pode fazer: o cuidado com o paciente, sem terceirizar julgamento clínico para nenhuma ferramenta.
